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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Cigana Mirian Stanescon - A Rainha dos Ciganos




A trajetória, os costumes e as dificuldades desse povo narrados pela presidente da Fundação Sara Kali, Mirian Stanescon
O desafio entre uma cultura milenar e repressiva ante as exigências da sociedade moderna Santa padroeira

Mirian Stanescon, descendente de russos Kalderash, neta e filha de analfabetos, fugiu um pouco à regra e, dentro do costume em que toda mulher dá obediência ao pai, aos irmãos e ao marido, foi a primeira cigana a obter diploma de curso superior. Bacharel em advocacia, é considerada a líder deste segmento no Brasil, onde tem seu registro de cidadania desde os dois meses de idade. Sua avó, Yordana Stanescon, fez a primeira casa de alvenaria no Brasil e nela hospedou ciganos que vinham do exterior e precisavam de ajuda para se estabelecer.

Com o patrocínio do governo federal, foi autora da cartilha "Povo Cigano: o direito em suas mãos", distribuída gratuitamente pelo país, onde constam os direitos dos ciganos como cidadãos brasileiros e minoria étnica. Até o momento, Mirian foi pessoalmente a 18 estados para divulgar o guia e explicar como eles podem se socorrer.

Por meio do cargo de conselheira nacional da igualdade racial e delegada da Comissão de Direitos Humanos da OAB do Rio de Janeiro, ela conseguiu aprovar 25 propostas na 9ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, em 2004. Na I Conferência de Igualdade de Raça, incluiu mais quatro. Foram, portanto, 29 projetos que buscam, prioritariamente, tirar a comunidade cigana da invisibilidade governamental, que há séculos perdura em todo o mundo. Sua principal exigência é a de que haja pelo menos uma médica em cada ponto do Sistema Único de Saúde (SUS), pois as ciganas ainda têm sua saúde prejudicada por não se consultarem com homens.

"As mulheres ciganas ainda sua saúde prejudicada por não se consultarem com homens. É preciso que haja pelo menos uma médica em cada ponto do SUS."

Saga Cigana

Não é tão simples estudar a história cigana como de qualquer outra etnia, pois, trata-se de uma cultura transmitida oralmente, entre as famílias e seus antecessores. Não existe registro de obras históricas escritas por ciganos, tornando ainda mais complicado separar esta realidade que lida com o imaginário, fábulas e lendas repassadas por seus ancestrais das falácias leigas que eventualmente são publicadas.

O Brasil comporta sete diferentes clãs, são eles: Moldowaia, Sibiaia, Roraranê, Lovaria, Mathiwia, Kalê e Kalderash, do qual Mirian faz parte. Após milênios de escravização no Egito, a diáspora cigana espalhou por todo o mundo esses indivíduos que jamais quebrariam o pacto de preservar suas tradições, seu idioma e sua magia, com a Cabala, a pirâmide e as cartas. Os pioneiros chegaram à colônia "degredados" de Portugal em 1574 e o primeiro nome a se ter notícias foi de João Torres, mais tarde assassinado pela Inquisição, como tantos outros ciganos ao redor do planeta, que tiveram sua cultura condenada.

Durante os oito anos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, houve um aumento muito significativo de inclusão social e, pela primeira vez, viu-se entrar em ação um trabalho em prol dos direitos ciganos. Foi a pedido de Stanescon que o presidente decretou a data 24 de maio como o Dia Nacional do Cigano, em 2006. Segundo a advogada, Lula demorou apenas um dia para atender à reivindicação.

Estima-se que moram no país cerca de 800 mil a um milhão de ciganos atualmente. O censo ainda é muito difícil, porque quem não é cigano tem o prazer de dizer que é, pelo folclore e fantasia e quem é tem medo de dizer pelo medo do preconceito, "como alguns advogados ciganos que conheço que negam que são ciganos", comenta a advogada. No Brasil, os estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Bahia são os lugares onde há mais ciganos.

"É muito difícil estipular a quantidade de ciganos no Brasil, porque quem não é tem prazer em dizer que é, pelo folclore e fantasia."

Fundação Santa Sara Kali

A Santa Sara Kali, padroeira do povo cigano hoje já tem seu templo no Brasil. Existe no Parque de Ipanema, no Arpoador - Rio de Janeiro. É o primeiro ponto de referência dos ciganos no Brasil e na América Latina, templo ao ar livre, criado dentro de uma grande gruta, onde ocorre a festa oficial da gente cigana no dia 24 de maio, conforme o calendário da cidade.
A presidente da Fundação Santa Kali, conta que todo mês lava a gruta com detergente, depois dá banho de água de cheiro, como limpeza espiritual. "Atualmente, o cigano não precisa ir pra França comemorar sua religião, tem o lugar dele, "muito mais bonito", opina.

As atividades da instituição, que tem como principal objetivo a inclusão da população cigana em políticas públicas, começaram em 1997, com a primeira Cruzada pela Paz Mundial. Nesta mesma época, houve o assassinato do índio Galdino Jesus dos Santos e o ocorrido abriu os olhos da Caravana Cigana pela Paz a não se restringir apenas sua etnia, homenageando também índios, judeus e negros.
Santa Sara foi uma cigana, como tantas outras, sendo a única santa cigana que existe. Quando as famílias ciganas chegaram ao Brasil, não havia uma única santa que as representasse. Quando viram Nossa Senhora
Aparecida, com a pele escura, compararam com Santa Sara, que era egípcia e tinha a pele mais morena. Desde então, ela passou a ser a grande matriarca deste povo, dona da fertilidade, relacionada à família e ao amor.

Cidadania cigana

No Brasil, a despeito da fama que levam, não há registros de infrações da lei cometidas por ciganos. Stanescon afirma que não há um preso nem casos de atos libidinosos com crianças dentro da sua gente. No acampamento cigano, todos os moradores passam a ser da mesma família. A criança é criada com extrema liberdade, mas não responde aos mais velhos, veem neles a sua biblioteca, arquivos vivos de sua história que, mais do que todos, merecem respeito. Hoje em dia, elas ainda não frequentam normalmente a escola, mas a inclusão escolar é o movimento mais novo dentro das lutas de espaço.

Como cidadãos brasileiros, têm direito ao voto, no entanto não seguem partido político, votam segundo a intuição, geralmente o candidato em quem mais acredita ou simpatiza. Suas pretensões são muito peculiares, por exemplo, não têm interesse no planejamento familiar: "O grande barato do cigano é ter filhos, indica sorte". Além disso, são contra o aborto por considerarem um crime espiritual contra a crença da reencarnação. A gente cigana é muito espiritualizada, tem conhecimento nato de raízes, ervas, sais de banho, simpatias e tudo que está envolvido com a natureza, árvores, lua, sol e ar.

Existe uma "filosofia" dentro desse meio que defende que "ao homem tudo porque nada pega e a mulher nada porque tudo pega." Utilizada pelos machões ciganos, redime as práticas de poligamia, mas é preciso deixar claro que a mulher oficial é a mãe de seu filho. Diferente da sociedade ocidental, a esposa pode estar em péssimas condições físicas, mas é respeitada como a única e vitalícia, por ser a mãe. O homem cigano protege a mulher cigana, sendo esposa ou não.

A mulher cigana

A mulher cigana é desenvolvida espiritualmente para trabalhar na magia desde os sete anos de idade. Ela sabe cozinhar bem e fazer do marido o rei da casa. Casa-se, ainda muito cedo, geralmente aos 12 ou 13 anos de idade. Apesar da regra proibir noivado com homens não-ciganos, Stanescon casou-se com um quando já era procuradora em Nova Iguaçu, aos 32 anos, pois estava decidida a um matrimônio por amor.

Mesmo assim, a cerimônia ocorreu dentro dos rituais ciganos e, deste modo, apesar da idade, manteve-se virgem até a noite de núpcias. "Eu quis provar que uma mulher pode ser formada e permanecer honrando suas tradições tanto quanto uma analfabeta. Com isso, quero incentivar as meninas a estudarem", afirma.

A mulher cigana ainda é muito discriminada fora da comunidade, onde o desrespeito é generalizado. A advogada conta que se mantém muito séria em entrevistas para a TV, pois ao saberem da presença de uma cigana, a primeira pergunta que fazem é se vai ler a mão de alguém. "Respondo: não vim aqui pra ler mão, vim mostrar aos senhores uma cartilha escrita pra mostrar ao meu povo o direito que eles têm como cidadãos brasileiros", recorda.

A advogada lembra que, quando foi aprovada no vestibular, todo mundo ganhava carro ou viagem à Europa, enquanto ela recebeu de seu pai um soco na cara. Quando chegava a uma festa cigana, era chamada de doutorinha. Segundo a tradição, a mulher cigana não bebe na frente dos maridos, no máximo degusta uma pouca quantidade escondido. Hoje em dia, é mais liberal, mas há algumas décadas, a cigana nunca se sentava à mesa, apenas os homens.

Toda mulher cigana é cartomante, para exercer um dever religioso, contudo, não aprecia ser conhecida apenas por esta façanha. É uma obrigação que compromete apenas um dia da semana. Na segunda-feira, elas cultuam os ancestrais, mas cada uma escolhe um dos dias restantes, de acordo com o modo em que foram iniciadas, para atender, segundo os sete mandamentos das cartas. Após a iniciação, algumas são obrigadas a sete anos de leitura de mãos na rua, que é uma maneira de se aprimorar espiritualmente, pois estimula o cultivo da humildade, em meio a tantos deboches alheios.

Nem todas vestem a roupa tradicional, mas é imprescindível manter a cabeça coberta sempre que usar a vestimenta, essa é a aliança da mulher cigana, o que a identifica como mulher casada. Stanescon ainda não consegue visualizar a liderança da mulher cigana, tampouco se considera uma líder, e sim uma mulher com pensamentos de vanguarda, diferentes do seu povo. "Eu vim mostrar novos caminhos e mostrar que cultura não é perda de tradição, eu quero mostrar e já mostrei que com todos os cursos, doutorado, mestrado, tudo, primeiramente eu sou cigana.", afirma.

"Eu quis provar que uma mulher pode ser formada e permanecer honrando suas tradições tanto quanto uma analfabeta. Com isso, quero incentivar as meninas a estudarem."

Texto de autoria e publicação autorizada por : Mirian Stanescon
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